Todos os comités de investimento conhecem uma versão do mesmo momento. Um partner detém-se num único número, talvez um múltiplo de saída, um pressuposto de churn ou uma taxa de desconto, e pergunta ao analista porque é que é aquele e não outro. A pergunta raramente é sobre o número em si. É um teste. Se o analista conseguir fazer o caminho de volta, daquela célula até ao raciocínio que a produziu, o partner estende a sua confiança ao resto do memorando. Se o analista hesitar, o documento inteiro passa, de repente, a estar em causa.
Essa troca só funciona se quem defende o trabalho for quem o fez. É precisamente este o pressuposto que uma adoção descuidada da IA quebra, sem que ninguém dê por isso.
A armadilha parece produtividade
Quando um modelo consegue produzir em minutos uma primeira versão polida de um memorando de comité de investimento, o passo que parece racional é deixá-lo fazê-lo e gastar as horas poupadas a editar. O resultado melhora. O ritmo melhora. Todos os envolvidos podem apontar para algo que parece progresso.
O que de facto aconteceu foi a troca de um ato cognitivo por outro muito mais fraco. Produzir um argumento obriga a demorar-se nos dados, a decidir o que importa e a assumir uma posição que pode estar errada. Rever um argumento plausível produzido por outrem exige muito menos, e parece mais completo do que é: um rascunho fluente lê-se como se o raciocínio já estivesse feito, e por isso o ceticismo do leitor afrouxa exatamente no momento em que devia apertar. O analista torna-se editor de um rascunho que não consegue defender por inteiro, e nada na página o denuncia. A qualidade parece a mesma. O critério por baixo dela vai-se esvaziando.
Há uma diferença entre ser dono de um argumento e ter aprovado um, e um comité de investimento existe para a encontrar.
Porque é que o trabalho de investimento está exposto
Algumas profissões conseguem absorver isto em silêncio. O trabalho de investimento não consegue, porque toda a sua estrutura de revisão pressupõe autoria. Um memorando passa do associate para o principal, do principal para o partner e do partner para o comité, e em cada etapa quem revê faz uma amostragem: testa dois ou três pressupostos que sustentam a tese, observa como o autor responde, e concede ou retira a confiança em conformidade. A amostragem é eficiente precisamente porque defender bem um número é prova de que o autor consegue defender os outros.
Quebre-se o pressuposto da autoria e a amostragem quebra com ele. O analista que editou um rascunho gerado pode aguentar a primeira pergunta, porque os modelos são bons a fazer com que os pressupostos pareçam fundamentados, e falhar a segunda; ou aguentar ambas e levar um erro não detetado até um term sheet assinado. A erosão também se acumula. Os analistas aprendem a ter critério ao produzir trabalho e ao vê-lo desmontado; os partners que hoje desmontam memorandos aprenderam a fazê-lo quando os seus eram desmontados. Uma casa que deixa os seus juniores saltar a etapa da produção não está a poupar tempo. Está, sem dar por isso, a cancelar o tirocínio que forma os seus futuros partners.
Inverter o fluxo de trabalho
A resposta não é menos IA. É uma sequência diferente. O analista produz a primeira versão, a posição, os números e o raciocínio, antes de o modelo ver qualquer parte disso. Depois, o modelo entra como adversário e não como autor: para atacar a tese, procurar indícios que a contrariem, pôr à prova os pressupostos a que o analista está mais agarrado, e verificar as contas e as fontes. Chamamos-lhe IA como adversário, não como autor, e é o princípio por trás de tudo o que fazemos.
A inversão importa porque é na cadeira do crítico que o modelo vale mais e corrói menos. Como autor, ocupa o lugar do trabalho formativo; como adversário, multiplica-o. Um analista cuja tese resistiu a um red-teaming a sério entra no comité com melhores respostas do que o analista sem ajuda e do que o que se limita a pedir e a polir, e cada uma dessas respostas é do próprio analista.
O que uma casa pode fazer
Nada disto se aguenta com boas intenções, porque o caminho de pedir e polir será sempre o mais rápido numa terça-feira qualquer. Tem de ser mantido por estrutura. As normas de revisão podem exigir que o contributo humano seja legível: um memorando chega com o trabalho formativo em anexo, e quem revê tem o direito de perguntar que partes produziu o analista e quais contestou o modelo. Os partners podem fazer da proveniência uma pergunta normal em comité, feita sem cerimónia, tal como hoje se pergunta «porquê este número». Sessões de calibração conduzidas por seniores detetam desvios em analistas individuais antes que se espalhem pela equipa: trabalhar em conjunto um problema real de um negócio em curso, primeiro sem ajuda, depois com o modelo como crítico. E exigir, de vez em quando, uma primeira versão feita inteiramente sem ajuda faz pela equipa da casa o que uma auditoria faz pelas contas: confirma que a capacidade que todos dão por garantida continua, de facto, lá.
As casas que acertarem nisto serão mais rápidas e mais certeiras do que as que se limitaram a adotar as ferramentas, porque terão guardado o único ativo que as ferramentas não substituem. As que errarem não vão dar por isso durante algum tempo; os seus documentos terão um aspeto excelente. Depois, numa tarde em comité, um partner detém-se num número e pergunta porquê, e ninguém na sala é dono da resposta.
Se esta é uma pergunta que a vossa casa já começou a fazer a si própria, teremos todo o gosto em conversar sobre ela.